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HISTORIAL DO BAIRRO CRAVEIRO LOPES

Das circunstâncias do surgimento do Bairro Craveiro Lopes
Durante os anos de 1940 a 1949, Cabo Verde é confrontado com duas grandes crises de estiagem que afecta, em grande medida, o país em termos demográficos. Na capital do país, cidade da Praia, através dos Serviços de Assistência Pública, tenta-se fazer face a esta crise garantindo aos mais pobres refeições diárias. Contudo a 20 de Fevereiro de 1949, o muro sob o qual se abrigava a maior parte das pessoas que recebiam refeições quentes diárias, não se sabe se pela ventania ou pela pressão de bidões que estavam alojados do outro lado onde havia um armazém das Forças Armadas, desabou, ocasionando 232 mortos e 47 feridos.

A população da Cidade da Praia estupefacta acorre ao local para ajudar na remoção das vítimas. É neste contexto que se cria uma comissão para angariar fundos e promover a utilização desse fundo na ajuda às vítimas deste desastre. Chegam apoios de diversas proveniências, especialmente das outras colónias portuguesas em África, e, é desta forma que se conseguiu arrecadar alguns milhares de contos (SILVA; 1989: IV).

Passado um ano após o desastre, em 1959, Bento Levy no seu artigo «Já é tempo», no Cabo Verde: Boletim de Propaganda e Informação, chamava atenção da necessidade de se mobilizar o dinheiro arrecadado, por forma a dar-lhe utilidade, e sugeria que aquelas pedras lá em baixo amontoadas, devem desaparecer, ressurgindo, porventura, em qualquer coisa útil para os que ficaram” (Levy; op. Cit.). Reclamava-se, assim, a partir do fundo da comissão criada a concretização de algum projecto útil para os sinistrados e mais necessitados.

“Dizem que o Bairro Craveiro Lopes surgiu desse dinheiro da ajuda” , afirmava Filomena Silva (SILVA; 1989: IV) num artigo sobre o Desastre da Assistência. Do mesmo modo, esta versão é reafirmada por António, actualmente reformado, e um dos primeiros moradores do Bairro:

«(…) foi depois do desastre da Assistência, conseguiram muitas ajudas e fizeram o Bairro, até certa vez alguém me disse que este terreno tinha sido oferecido por um senhor chamado Gustavo Fonseca, que era proprietário e que deu o terreno à Assistência Pública, que depois veio a construir o Bairro» (António, 80 anos)

O Governo colonial, através dos serviços de Assistência Pública e a Câmara Municipal avançavam assim com o projecto de construção de um bairro social. A partir daí surgiriam as primeiras casas e se desenhava já um esboço do Bairro Económico que se pretendia construir para os mais pobres e necessitados.

As primeiras casas construídas no Bairro

Bairro de Santa Filomena
A 28 de Maio (data da Revolução Nacional de Portugal) de 1954, se inaugurava o primeiro bairro de renda económica em Cabo Verde, o Bairro de Santa Filomena. Quem nos diz isso, é Luís, que conjuntamente com a mãe ocupou umas das casas que constituíam os primeiros blocos inaugurados em 1954.

“O Bairro foi inaugurado a 28 de Maio de 1954, quem inaugurou o bairro foi a mulher do Governador, a Senhora Dina Flores Abrantes Amaral” (Luís, 73 anos)

Maria, doméstica, morava no bairro de Ponta d’Água, e em 1954 mudaria com seu pais e irmãs para este novo Bairro:
«O Bairro foi inaugurado em 28 de Maio de 1954, o Bairro de Santa Filomena, porque a parte de baixo ainda não existia. O Bairro era este bloco de casas, esta parte, a praça, a capela e o posto sanitário. Nós chamávamos de bairro de Santa Filomena por causa da Santa que havia na Capela. A parte do bairro que chamamos agora de bairro baixo veio a ser inaugurado 2 ou 3 anos depois. É justamente esta parte que viemos a chamar de Bairro Craveiro Lopes. Quem mandou construir o Bairro foi o Senhor José Soares de Brito, ele era Presidente da Câmara Municipal da Praia e também Presidente da Assistência Pública …mandou construir o Bairro por causa do desastre da assistência». (Maria, 82 anos)

Assim, se inaugurava o Bairro com 2 blocos de casas – todas com fachada branca – cada qual com vinte casas, perfazendo um total de 40 casas, uma Praça com um chafariz ao centro do qual ainda não brotava água, tendo de um lado um Posto Sanitário, e do outro uma Capela, a capela de Santa Filomena.


Bairro Craveiro Lopes
Em 28 de Maio de 1955 eram inaugurados outros blocos de casa, uma nova parte do Bairro de Santa Filomena, que fica(va) do outro lado da Praça, a parte mais abaixo, que viria a ser denominada de Bairro Presidente Craveiro Lopes, por ter sido inaugurado pelo então Presidente da República de Portugal, o General Francisco Higino Craveiro Lopes.


Inauguração do Bairro Santa Filomena a 28 de Maio de 1954

Conjuntamente a estes dois blocos de casas – que já não se limitam à fachada branca e lisa dos que primeiro foram inaugurados, mas tem um desenho a imitar um tijolo, e as janelas passam a ter pequenas vidraças – inaugura-se também o Posto escolar, contendo uma sala de aula, e logo à frente deste posto um monumento comemorativo da inauguração do Bairro Craveiro Lopes, pelo Presidente de Portugal da altura, o General Craveiro Lopes


Escola e Monumento

Reforçando toda a relevância que se estava atribuindo a este projecto, a singularidade do Bairro ganharia, agora, para os seus moradores, mais um diferencial, seria inaugurado pelo Presidente da República. Joana, 75 anos, é uma das primeiras moradoras do bairro então inaugurado, e reproduz exactamente, a partir desta inauguração, este sentimento da importância do Bairro.

«Foi nesta casa que Craveiro Lopes entrou primeiro, aqui onde estamos. Até na Praça temos escrito no Chafariz que foi o Presidente Craveiro Lopes que inaugurou o Bairro. Ele veio de propósito para a inauguração do Bairro» (Joana; 75 anos)

A pouco e pouco ia-se construindo as casas que iam dando forma ao Bairro que no seu conjunto se denominaria simplesmente “Bairro Craveiro Lopes”. Assim, até mais ou menos por altura de 1960, todos os anos a 28 de Maio se inaugurava 12 novas moradias neste bairro, destinadas a funcionários do Estado. O Bairro continuava a ser ocupado na sua maioria por funcionários públicos que pagavam como renda mensal um valor que oscilava entre 50 a 60 escudos.

«Após o Bairro de Santa Filomena estar formado, veio a se formar o Bairro Craveiro Lopes que foi inaugurado em 1955-56, a parte de baixo. Lembro-me de quando marcaram o chão para fazerem as casas. Fizeram os chalés, o monumento, a escola, já existiam a capela, o posto sanitário, a loja do bairro também já existia nesta altura. A seguir fizeram a casa dos polícias, a Câmara fez o outro logo a seguir, depois fez-se as casas com 3 ou 4 moradias. Tínhamos também o balneário, a floresta que tinha trabalhadores e mulheres que regavam» (Luís, 73 anos)

Para além destas casas que moldavam as ruas do Bairro, nos anos [60-70], seriam construídos 4 prédios, 2 na parte de cima do Bairro anteriormente designado de Santa Filomena, e mais 2 na parte de baixo denominado Craveiro Lopes. Após a independência Nacional, em 1975, o nome de Craveiro Lopes foi substituído pelo do político e defensor do Pan africanismo, o ganês, Kwame N’Krumah. E, por consequência, foi destruído, também, o monumento comemorativo da sua inauguração pelo Presidente Português Craveiro Lopes.

O Bairro perdia o seu monumento, passava a ser Bairro Kwame N’Krumah, nome do revolucionário ganês, influente nas lutas de independência do Gana. Numa estratégia de oposição aos sinais do colonialismo, os novos governantes do país tentam eliminar todos os vestígios deste processo e desta época, e procuram passar a ideia do nascimento de uma nova era para Cabo Verde.

Inserido neste processo, a par da mudança do nome, da destruição do monumento, Bairro ganhava novas infra-estruturas. Nos anos 80, é construído um Cinema, e uma quadra desportiva que contou com a colaboração dos seus moradores.

A pouco e pouco, o Bairro ia adquirindo a configuração espacial que tem hoje. Na década de 90, o país passava de um regime político de partido único para o Multipartidarismo. Com a entrada de um novo partido político no poder, Movimento Para a Democracia (MPD), o Bairro voltaria a ser, em 1993, “Craveiro Lopes”.

Mais uma vez, o Bairro ressente-se da mudança das configurações políticas no país, «com a chamada Abertura Política, […] esse modelo aproxima mais a ex-colónia da sua ex-metrópole, o que facilita o processo de importação, já que essas novas elites não deixam de ser ainda o resultado do esforço do colonizador para criar agentes indígenas capazes de difundir as normas da potência colonial» (Anjos; 2002: 207). Bairro recuperaria o seu nome inicial, e, com isso, muitos moradores recuperariam também o sentimento de singularidade, e diferenciação, por viverem no «primeiro e “único” bairro inaugurado por um Presidente da República português»:
«Destruir o monumento, e mudar o nome, não sei porquê? A história não se apaga. Nós éramos os únicos que tínhamos aquele monumento, era o nosso símbolo» (Luísa; 62 anos)

Vizinhos, amigos e rivais: Espaços, sociabilidades e relações intra Bairro
Situado na região centro da Cidade da Praia, e inserido na zona de Achadinha que conta com 10.134 habitantes12, o Bairro Craveiro Lopes é cercado pelo bairro de Achada Eugénio Lima, e Achadinha (Cima e Baixo). Quem entra no Bairro Craveiro Lopes, fica com a ideia que o espaço se constitui por três ruas centrais, cujo centro se apresenta numa praça, na qual se destaca o que assemelha ser uma pequena torre, que na verdade é um chafariz de água, que abastecia a localidade antes da água ser canalizada nas casas.

A praça tem num dos extremos uma pequena Capela (de Nossa Senhora de Imaculada Conceição), e no outro extremo o pequeno Posto sanitário. Ao lado da capela, se situa agora o novo Centro de Saúde da Achadinha, e, a uns 30 passos, podemos chegar ao Cinema do Bairro, ou da Sibéria, como o denominam os moradores do Bairro. Designação que se ficou a dever por ser um cinema a céu aberto, e que, por isso, quem assistia às sessões de filme sentia algum frio. Hoje, o Cinema encontra-se fechado e sem qualquer actividade. Além deste Cinema, o único existente na Cidade da Praia é o do Plateau. Por isso, este cinema movimentava pessoas de várias proveniências, que se deslocavam ao bairro para assistir aos filmes, uma vez que os bilhetes eram significativamente mais baratos, em comparação com o cinema do Plateau. Tendo de um lado o Centro de Saúde, o Cinema tem do outro lado o “Prédio Verde”, e nas suas “costas” o Supermercado “Calú & Ângela”.


Centro de Saúde, inaugurado a 13 de Janeiro de 2009

Do outro extremo da Praça, encontramos o pequeno Posto sanitário, que ao lado, tem um chafariz de água, e a Quadra desportiva, o Polivalente do Bairro, que fica paralelo a um outro prédio de cor Rosa. O Polivalente foi, durante muito tempo, dinamizado pela ADESBA (Associação Desportiva e Recreativa do Bairro Craveiro Lopes), utilizado para treinos e jogos desportivos, para ensaio de desfile de Carnaval do Grupo Vindos d’África (anteriormente Vindos do Bairro), e também para espectáculos de música. Ao fundo destas três ruas, aparece-nos o Posto Escolar, construído e inaugurado conjuntamente com o Bairro Craveiro Lopes, que hoje dispõe de algumas salas de aula. Esta escola primária, hoje denominada Escola Ensino Básico Integrado Quintino Ribeiro, em homenagem a um professor morador do Bairro, é ladeada por moradias. De um lado o “Prédio Azul”, e o antigo Comité do PAICV (Partido Africano para a Independência de Cabo Verde), e do outro lado.

Podemos dizer que delimitar o Bairro não requer precisão, pois se baseia na existência de marcos referenciais que são do senso comum, são no fundo, imagens construídas pelos seus moradores a partir da forma como o espaço surgiu, mas também relacionada a criação de fronteiras (in)visíveis.

O espaço é, portanto, palco de dimensões simbólicas e culturais a partir de uma identidade própria criada pelos seus habitantes que o apropriam, não necessariamente como propriedade, mas com a ideologia cultural manifestada nas relações políticas, sociais, culturais. Os símbolos, imagens e aspectos culturais acabam por se constituir como valores, talvez invisíveis, endogenamente falando, que para a população local materializa uma identidade incorporada aos processos quotidianos dando sentido a este espaço, de pertença e de defesa dos valores, do território, da identidade, utilizando-se das vertentes político-cultural, que na verdade são relações de poder e defesa de uma cultura adquirida.

Estas informações foram extraídas da Dissertação de Mestrado de Carmen Barros Furtado, intitulado BAIRRO DE PERTENÇA, BAIRRO DE MÚSICA: Espaços, Sociabilidades e trajectórias de músicos n(d)omeio urbano caboverdiano


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